domingo, 30 de setembro de 2012

Vindas

Não foi a primeira vez que a calma me estendeu a mão.
Orgulhoso, sempre desdenhei.
E por pura pirraça, metia as mãos no bolso.
Ela porém, nunca desistiu.
- Tarefa! dizia, humilde.
Noite dessas, ouço bater à janela.
Já conheço o som suave da sua pequena mão ao encontrar o vidro.
Sorrindo, me ofereceu mais uma vez.
E resolvi aceitar seu convite...
Não sei como será, sua companhia é nova,
Também não sei até quando nossas mãos estarão unidas,
Mas até lá, aproveito sua presença, e com calma, sigo
E escrevo...

domingo, 15 de julho de 2012

Tolo

Olhos que brilham. Aquecem.
Fazem esquecer.
Iluminam. Enternecem.
Fazer querer.
Olhos que cantam. Acompanham.
Trazem cor.
Encantam. Resplandecem
Viram prece.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Devoto

Prezo pouco, mas o pouco que prezo, prezo muito. E prezo coisas simples...
Dentre elas, os ciclos: o de calar, o de vociferar, o de aguardar, o de urgir.
E os vivo todos, num mesmo dia...
E prezo pela inconstância.
Busco a fina sintonia entre o que deve e o que me move.
Agarro minhas crenças e convicções; abro pequenas e breves concessões, só porque o caminho entre elas é divertido.
E retomo o ciclo. Sou o que me move, e me movo pelo que sou. Me regurgito.
Como sempre. Sempre como.
Desfaço o sentido de tudo que me esforcei muito para fazer sentido.
Meu sentir não pensar. E não penso no que sinto.
Me empurro para o abismo, e refuto a mão que quer me segurar. 
Me abasteço da vertigem da queda. Me esfalfo no chão, bato o pó das velhas calças.
Limpo o sangue do nariz na manga da camisa. 
E subo. E ciclo. E prezo.
De novo.

terça-feira, 27 de março de 2012

Nem mesmo

"Se você pudesse ver o amante em mim e pudéssemos juntar nossas mãos, você veria o quão bom poderia ser, e cantaríamos essas estúpidas canções de amor para sempre..."
Mais uma vez, um trecho de canção, já quase antiga, e muito desconhecida. 
E com ela, um pensar tolo, como é tola toda paixão. Essa vontade de dividir-se, de comungar, de aceitar e admirar.
Já não sei se sabemos amar. Nem ao mesmo se ainda sabemos o que significa.
Escondemos nas palavras batidas essa nossa incapacidade. Declinamos no primeiro acelerar do peito, no primeiro sorriso que escapa. 
E não sabemos mais, porque amor, é descontrole. É aquela fúria indomável. Fremente e inconstante, que nos faz agir por impulso, perder a fala e secar a boca. É chama. Queima e dói. De dor e de prazer.
E é isso que perdemos, essa capacidade. 
Almejamos o controle, total. Sobre todos e sobretudo sobre nós mesmos. Sem mais espaço para o perder de rumo, sem o desconforto de estar perdido. 
Assim, o amar se foi. As mãos dadas se foram, e o cantar das estúpidas canções de amor se perdeu...
E nem mesmo os poetas amam mais.

domingo, 11 de março de 2012

Every day is like sunday

"Minha vida é uma sucessão de pessoas dizendo adeus".
Cresci ouvindo The Smiths, e na gelada Curitiba me sentia próximo do frio de Londres. E como qualquer admirador honesto, fiz minhas muitas das palavras desse senhor. Sim, dediquei suas canções como se fossem minhas, usei suas frases. Seu topete não é mais o mesmo, e eu não sou mais aquele garoto. E hoje, cantei sozinho com aquele que chamo, carinhosamente, de minha tia velha. Revi o rosto daquela para quem dediquei as suas canções, lembrei de cada circunstância. Fui jovem por uma hora e meia, revivi cada paixão. E as deixei. Um ritual estranho, de cura e admiração, e um pouco só de raiva, por não ser capaz de me expressar assim.
Obrigado Sir Morrissey! Talvez depois de hoje, eu te ouça diferente. E talvez não dedique mais as tuas músicas. Mas não deixe de transmitir em palavras e partituras o que sente. E volte sempre.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Ocupação

Deixar. Tenho conjugado esse verbo à exaustão, há quase quarenta anos. 
Deixo e me deixo.
E só escrevo quando a alma grita. Por muito, ou por nada.
Por uma simples sensação, um aroma, um arfar.
Meu silêncio desembocou nisso, num talvez. Numa impressão.
E de novo, sopro a última brasa, abro o peito e pago o preço.
Alterno passos largos com outros, quase imperceptíveis.
Deixei, de novo. E ficou o espaço, vazio. Não por muito tempo.
Algo ou alguém sempre o ocupa.
Então, que eu me ocupe, de novo, sem culpa.
E deixo a sensação me ocupar, até que se conjugue, de novo, o verbo que tão bem conheço.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Primeiro adeus

Sempre escrevo na Quaresma. Alguns anos no meio, outros no fim. Desta feita, aproveito já seu início. Conheço bem a simbologia das cinzas. E mesmo quando é pouco, o fogo deixa suas cinzas.
Mas não é o pouco fogo, nem as cinzas. Nem as parcas expectativas, muito menos o silêncio. 
O que deixo hoje, são os planos.
Os meus não; esses me movem, me empurram ladeira acima.
Os que deixo que virem cinza são os outros, aqueles surgem em conjunto. Aqueles, muitas vezes impossíveis e improváveis. Aqueles que não dependem só da minha vontade.
Mal consigo manter minha alma sã, quem dirá carregar o fardo de outrem. Não sou mais um jovenzinho para gastar meu tempo, que escorre rápido. 
Portanto, de novo, alguém ficará pelo caminho. De novo, aborto os "nossos" planos.
Sigo com a marcha solitária, minha, particular e intransferível. Retomo o subterrâneo, que reconheço como meu.
Não sei se receberei as cinzas na missa de hoje; mas as do peito, já as tenho. Resignado, me despeço. 
E rezo para não precisar de um segundo adeus.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Pouco perfil

Você me olha e me acha triste, mas são só meus olhos, pequenos.
Você me observa e me vê sério, mas é só minha índole, grave.
E por me ler errado, e te afasto, sem querer.
E minha feiura te leva para mais longe. Me avalie do pescoço pra baixo. É da minha natureza. E optei por investir os trocados restantes na massa incógnita que está acima e logo depois do meu obsceno nariz.
Não sou triste, só as vezes. E nem é por mim. É só a percepção do tosco. Cotidiano e alheio.
E quando sorrio, tímido, de canto, é sempre sincero.
Sei quem sou; quem fui e no que me tornei. 
E as vezes, estendo a mão. E quando estendo, é como o sorriso. Sincero.
Pode não ser sua melhor opção, pode ser a única, não importa.
Talvez esse estender te traga para perto. 
Ou não.
Sou feio,  grave, meus olhos são pequenos e minha mão está estendida. 
Ainda.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Caminho da roça

Viajo há muito, por sorte meu trabalho me levou à muitos lugares. Em cada um deles, devoto meu respeito. A cidade é muito mais antiga que eu. Há quatro anos, o destino me levou a Irati, doce cidade no centro-sul do Paraná. Sou feliz aqui, mas meu coração, embora dividido, é curitibano. Era um menino, de três anos incompletos quando nevou pela última vez, depois de nascer prematuro na Vicente Machado. Me criaram perto do Cemitério Municipal, quando a praça do gaúcho era ainda só uma praça com areia, o Mueller era só uma fabrica abandonada, e os pinheirinhos se amontoavam no muro do Cemitério.
Tudo mudou, mas o respeito não muda. Se aprende no berço.
Respeito que muitos esquecem, quando aportam na minha cidade. Se acham maiores que ela. E querem impor seus hábitos, sem perguntar. A Curitiba fria acolhe todos, mesmo que em pouco tempo esqueçam de onde vieram. Aqueles que só a usam, sem pudor. Os imbecis que se adonam da terra, que não perdem a oportunidade de falar mal daquela que paga seus sustentos. 
De longe, sofro com minha terra natal. Nem ela, nem eu, nascemos com grandes vocações. Não lidamos bem com as transformações.
E, mesmo de longe, coleciono desafetos. De longe, defendo o chão que nasci. 
Continuo assim, província. E se falar mal da minha Curitiba, vai ter em mim um inimigo, e sem pudor, te mando de volta para a roça (ou metrópole) que saiu. 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Indo

Juntou uns trocados e lá se foi, com o ônibus que parte da acanhada rodoviária pouco antes da meia noite. Não dormiu, pois a senhora obesa roncava na poltrona ao lado. A cabeça fervente, o coração cheio de sonhos.
Suspirou quando viu o primeiro prédio, e deixou a estação com os sapatos ainda enlameados. Do orelhão, perguntou à prima o endereço e como chegar.
Instalada, periférica, colocava as compras na sacola do mercadinho o dia inteiro. Dinheiro pouco, trabalho muito. Cantava no fim do dia. E antes de dormir, rezava. Queria ser atriz.
Com o que juntou, alugou um quarto. Na praça central. Não mais menina, decidida, bancou seu sonho. Treinava sozinha, de madrugada, como perder seu sotaque. E com o primeiro trocado que sobrou, comprou um cachecol. 
Na biblioteca, leu milhares de orelhas de livros. No Natal, se deu de presente um all star, achado num brechó. No Ano Novo, tingiu os cabelos de ruivo com o dinheiro da passagem. Os pais entenderiam, talvez.
Sentiu-se pronta. Aprendeu trejeitos, cortou as saias. Perambulou pelos cafés, cochilou na mesa do bar. Precisava ser vista. Mentiu sobre sua origem, inventou estórias. Dormiu com o rapaz que fora capa do jornal. 
Venceu na vida. Perdeu o velório do pai, pois tinha um teste para um comercial de loja de material de construção. A mãe não perdoou, e não ligou mais. 
Ela andava ocupada, aprendendo maracatu. Ia fazer um musical. Apressada, se descuidou ao atravessar a canaleta. A última coisa que viu foi o sapato, um pouco sujo de barro, do motorista que xingava, preocupado com o horário. Tinha um sotaque carregado. Coisa de recém chegado, pensou. Ainda teve tempo de reparar no cachecol empapado de rubro. E os passageiros, ouviram ainda seu ultimo sussurro: foi pro um triz. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Ardor

Sempre elas, as palavras. Maldição de infância.
Solidárias, nunca andam sozinhas. Umas trazem outras, num ciclo. Interminável.
E como saber a medida?
Quando calar?
Como se calar resolvesse. Mas dizer também não resolve. Só aplaca.
Só é o assopro no ralado do joelho.
Que quase sangra, mas por ser pouco profundo, falha.
Se ao menos sangrasse. Mas só arde.
Que o ardor se mantenha, então. E se ameaçar cicatrizar, arrancarei a casca.
Assim, não esqueço. E acho outra palavras.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Cordeiros

A veia que salta, a pupila que dilata.
O punho que cerra, os dentes que rangem.
Fúria. Inata, própria.
O instinto, cego. O passo firme. O pensar, deixado.


O sangue que ferve, a boca que saliva.
A bílis que explode, o fel que se espalha.
Raiva. Doce, pura.
O urro, grave. O músculo, rijo. A consequência, esquecida.


Civilizados, esquecemos quem somos:
Animais enjaulados. Omissos e passivos; aguardando a dose diária de ração, as migalhas do afago.
Fugimos, mansos, em busca da adaptação.
Agonizamos a cada dia, sorrindo.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Ela e eu

Minha tristeza não marca hora, tem a chave de casa e não faz cerimônia. Chega sempre faminta. Com seu paladar exigente, escolhe o cardápio, e me observa enquanto preparo, cuidadoso, cada prato. A sirvo, cerimonioso, e aguardo um sinal de aprovação, que sempre aparece, queira ela ou não. Satisfeitos, a convido para um licor e um cigarro. Educada, aceita. E relaxa.
Saciada e à vontade, seus olhos entregam que quer mais. Eu, que conheço o jogo, aceito. Ela suspira.
Caprichosa, gosta do meu colo. Provocante, anda nua pela casa. Lasciva, sussurra no meu ouvido. Perfumada, me espera na cama. Inútil resistir. Ainda assim, a faço esperar. A conheço bem, sei dos seus gostos. Aprecio suas sutilezas, e a desejo.
De uns tempos pra cá, insiste em dormir no meu peito, aninhada. Quando juntos, quase não falamos. O toque substitui as palavras, cada gesto carrega em si seu significado. E assim passamos horas, até que o dia, nosso inimigo, se faça presente. Com nossa timidez habitual, sabemos que é hora da despedida. Breve, seca. Insinuante, deixa lânguida os lençóis, me olha e sorri. Cúmplice, se exibe uma última vez, se veste e se vai. E ambos sorriem, com a certeza de que o próximo encontro não tardará. Adormeço com o barulho da chave no tambor.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Desajuste

Desisto fácil por conta de um desajuste. Nem insisto.
Te desobrigo. Prescindo das companhias, e suporto a minha. Por pura falta de opção.
Meu apego é efêmero; minha lembrança, curta.
Me lanço, e me recolho. Típico das profundezas.
Anoto, e depois risco.
Imagino, e não concretizo. Esforço, mínimo.
Cultivo ciclos curtos, horas as vezes. Meses, no máximo.
Ainda canto, mas apenas as parcas canções que me comovem.
Sigo as palavras no papel, as que me incitam.
E me espalho, aqui e ali, as vezes.
Só para me esvaziar.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Até

Não me irrito com o rito, abuso dele. 
Repito o repetir até quase me irritar. 
Aí paro.
Respiro e reparo. Rio, remoo, regurgito.

Não me importuno comigo, me esqueço. 
Continuo com o incômodo até quase me comover. 
Ai canso. 
Comungo e confesso.
Creio, cristalizo, compartilho.


Não me importo com o erro, flerto com ele. 
Espalho o equívoco, até quase acreditar. 
Ai esqueço. 
Estúpido e estranho.
Embromo, elucido, emerjo.


Não me canso da dúvida, a venero. 
Desejo a dádiva até quase desistir. 
Ai declino. 
Dúbio e decidido. 
Despisto, devoro, domino.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Fever

Detalhes.  Já se disse que o diabo mora nos detalhes. Mas não só ele. É dos detalhes que nos abastecemos. Do timbre único da cantora que gostamos, da pequena pinta no tornozelo esquerdo da mulher amada, da cicatriz no queixo do amigo de infância, que só será reconhecido cinquenta anos depois, por esse detalhe.
E a cada dia os perdemos, os detalhes. Em nossa busca frenética de sermos alguém, deixamos de lado o que nos caracteriza. Não os reconhecemos em nós, e muito menos nos outros. Cada palavra, cada olhar, o mínimo sinal. Do outro, do nós mesmos. O pelo que arrepia, a pupila que dilata, o arfar, o peito que dilata a caixa toráxica. Nos perdemos no grande, e negligenciamos o pequeno. O ínfimo. Como se não fossemos feitos de ínfimos átomos de matéria. 
Que sejamos apenas um detalhe, capaz de alterar tudo ao nosso redor.
Que sejamos apenas uma febre...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Gaivotas I


Ele desamarra os sapatos. Suspira. Um dia longo. Mas ainda não pode dormir, tem suas obrigações. Tira as meias e observa seus pés. Não são os mesmos. Esfrega os dedos uns nos outros, hábito de infância. Pela janela entreaberta, a brisa sopra e traz com ela a maresia. Um hálito quente. Talvez chova, pensa. Uma década não fora suficiente, ainda tinha saudade de casa. Procura no pequeno armário, uma toalha. Cobre a fresta da porta. Do esconderijo sob o estrado da cama, retira a pequena lata e o cachimbo. Hábito da juventude, agora proibido. Sorri com o canto da boca ao lembrar das zombarias dos amigos. Preferiam cigarros.  Traga profundamente a fumaça adocicada. Sente o leve torpor dominar seu corpo. Foi um longo dia. Pequenos prazeres, pensa. Esvazia a cabeça. Descobriu cedo, a capacidade de abstrair. Quase um transe, um sonho. Seu coração dispara, com o irritante som do antigo telefone. Precisa atender, pois do contrário, alguém acordaria. A fumaça domina o pequeno quarto. Alô. Preciso que venha agora, sussurra aos prantos, a voz conhecida. Não posso, é tarde, responde lacônico. Preciso que venha, insiste quase inaudível, num timbre novo. Meia hora, concorda contrariado. Venha o mais rápido que puder, temo que chegue tarde demais, padre...

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Obviedades

Talvez um dia, eu pare.
De me expor, de me despejar num qualquer papel, num palco mal iluminado.
Talvez um dia eu canse, e queira ficar num canto, quieto.
Talvez um dia, eu não me importe, não deseje e não queira.
E talvez até ouça os sucessos populares.
Talvez até engavete tudo.
Talvez um dia eu abandone as reticências, aprenda a dizer adeus.
Me conforme com o que sou, e aposente a subversão.
Talvez um dia eu escreva sobre outras coisas,
deixe as metáforas fugirem pela janela.
Esqueça os aforismos, os neologismos e paroxismos.
Talvez um dia eu acorde simples, com apenas três acordes.
E use os livros para segurar a porta, que teimosa se fecha.
Talvez, um dia eu pare...
E nem perceba...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Quase antigo

O esgotar das palavras, a mudez que cega. 
A alma seca, sem cor. Os lábios ressequidos, como as flores no vaso.
As mãos calejadas, os quilos a mais, a obturação de cai...
Os olhos cansados, mas que não se fecham,
A bebida que corrói o fígado, mas que não mata.
O buscar insano do que dizer, pra quem dizer...
E então, o silêncio.
Os gritos da vizinha, que ralha com a criança ranhenta e descalça.
O conhecido que espanca a concubina, por ir de novo descolorir o cabelo e fazer escova.
A aranha marrom que não tenho coragem de matar, porque se esconde atrás da folhinha com a imagem de Nossa Senhora.
Aquelas palavras que deveria, mas que não digo, não agora.
A esperança distante, o porvir que fica por vir, mas que perde a hora sempre.
A estupidez alheia, sempre tão presente.
O buscar e não achar, o achar e perder.
A porta da frente que sempre acho que deixei aberta. 
A paixão que não se consuma, a porta que sempre se fecha.
As palavras escassas, a garganta que atrofia, as garrafas que se esvaziam, os ouvidos que zunem, o joelho que dói.
Eu que me repito, insisto nos mesmos erros, que vocifero sem medida.
Os cupins que se refastelam nas tábuas da casa, eu que me pego beijando a tela...
Crianças que nascem, o sol que se põe, a lua que se esconde.
Eu que me calo, quando deveria gritar. Que escapo, que me evito, que me contento com migalhas.
O tempo que não para, as pessoas que não se calam, que não esquecem.
Eu que não me esqueço,
Que não me livro de mim.
(jan 2011, encontrado só agora)

domingo, 1 de janeiro de 2012

O eterno partir

Entre ficar e partir, sempre preferi o partir. E mais uma vez, chegou a hora de fazer a mochila, e ganhar a estrada. 
Não devo voltar em breve, logo, cada ida é também uma despedida da cidade que ainda chamo de minha. Nossa relação tem mudado ano a ano. Hoje ela me parece aquela tia distante, que vejo só em ocasiões especiais, geralmente desagradáveis. Ainda volto, porque minhas raízes estarão sempre fincadas nesse chão gelado e úmido. Mas, diferente de outras vindas, não coloquei as expectativas na mochila. São tão poucas e tão pequenas, que caberiam no bolso da calça. Mas nem isso fiz. Deixei-as...
Desejei sim, encontrar algumas pessoas, mas quase não insisti. E dos poucos que encontrei, me abasteço pelos próximos meses. 
Volto então, pro lugar que é meu endereço atual, sem saber até quando será. Retomo o trabalho, querendo sempre mais, deixando a mala sempre pronta.
E quem sabe, um dia eu volte...

Mais do mesmo

Meu Ano Novo tem gosto de passado, sem fogos ou espumante.
Tem Radiohead e Chet Baker...
Meia dúzia de mensagens, pouca gente à mesa,
E quase ninguém no coração.


Meu Ano Novo não é tão novo, não mudo com o calendário.
Não pulo sete ondas, e me visto de negro.


Meu Ano Novo tem efusivos e falsos abraços, feridas recém fechadas.
Tem maionese que eu mesmo faço.
Um lembrar aqui, outro ali,
E a certeza da espera...