Sempre escrevo na Quaresma. Alguns anos no meio, outros no fim. Desta feita, aproveito já seu início. Conheço bem a simbologia das cinzas. E mesmo quando é pouco, o fogo deixa suas cinzas.
Mas não é o pouco fogo, nem as cinzas. Nem as parcas expectativas, muito menos o silêncio.
O que deixo hoje, são os planos.
Os meus não; esses me movem, me empurram ladeira acima.
Os que deixo que virem cinza são os outros, aqueles surgem em conjunto. Aqueles, muitas vezes impossíveis e improváveis. Aqueles que não dependem só da minha vontade.
Mal consigo manter minha alma sã, quem dirá carregar o fardo de outrem. Não sou mais um jovenzinho para gastar meu tempo, que escorre rápido.
Portanto, de novo, alguém ficará pelo caminho. De novo, aborto os "nossos" planos.
Sigo com a marcha solitária, minha, particular e intransferível. Retomo o subterrâneo, que reconheço como meu.
Não sei se receberei as cinzas na missa de hoje; mas as do peito, já as tenho. Resignado, me despeço.
E rezo para não precisar de um segundo adeus.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
sábado, 18 de fevereiro de 2012
Pouco perfil
Você me olha e me acha triste, mas são só meus olhos, pequenos.
Você me observa e me vê sério, mas é só minha índole, grave.
E por me ler errado, e te afasto, sem querer.
E minha feiura te leva para mais longe. Me avalie do pescoço pra baixo. É da minha natureza. E optei por investir os trocados restantes na massa incógnita que está acima e logo depois do meu obsceno nariz.
Não sou triste, só as vezes. E nem é por mim. É só a percepção do tosco. Cotidiano e alheio.
E quando sorrio, tímido, de canto, é sempre sincero.
Sei quem sou; quem fui e no que me tornei.
E as vezes, estendo a mão. E quando estendo, é como o sorriso. Sincero.
Pode não ser sua melhor opção, pode ser a única, não importa.
Talvez esse estender te traga para perto.
Ou não.
Sou feio, grave, meus olhos são pequenos e minha mão está estendida.
Ainda.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Caminho da roça
Viajo há muito, por sorte meu trabalho me levou à muitos lugares. Em cada um deles, devoto meu respeito. A cidade é muito mais antiga que eu. Há quatro anos, o destino me levou a Irati, doce cidade no centro-sul do Paraná. Sou feliz aqui, mas meu coração, embora dividido, é curitibano. Era um menino, de três anos incompletos quando nevou pela última vez, depois de nascer prematuro na Vicente Machado. Me criaram perto do Cemitério Municipal, quando a praça do gaúcho era ainda só uma praça com areia, o Mueller era só uma fabrica abandonada, e os pinheirinhos se amontoavam no muro do Cemitério.
Tudo mudou, mas o respeito não muda. Se aprende no berço.
Respeito que muitos esquecem, quando aportam na minha cidade. Se acham maiores que ela. E querem impor seus hábitos, sem perguntar. A Curitiba fria acolhe todos, mesmo que em pouco tempo esqueçam de onde vieram. Aqueles que só a usam, sem pudor. Os imbecis que se adonam da terra, que não perdem a oportunidade de falar mal daquela que paga seus sustentos.
De longe, sofro com minha terra natal. Nem ela, nem eu, nascemos com grandes vocações. Não lidamos bem com as transformações.
E, mesmo de longe, coleciono desafetos. De longe, defendo o chão que nasci.
Continuo assim, província. E se falar mal da minha Curitiba, vai ter em mim um inimigo, e sem pudor, te mando de volta para a roça (ou metrópole) que saiu.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Indo
Juntou uns trocados e lá se foi, com o ônibus que parte da acanhada rodoviária pouco antes da meia noite. Não dormiu, pois a senhora obesa roncava na poltrona ao lado. A cabeça fervente, o coração cheio de sonhos.
Suspirou quando viu o primeiro prédio, e deixou a estação com os sapatos ainda enlameados. Do orelhão, perguntou à prima o endereço e como chegar.
Instalada, periférica, colocava as compras na sacola do mercadinho o dia inteiro. Dinheiro pouco, trabalho muito. Cantava no fim do dia. E antes de dormir, rezava. Queria ser atriz.
Com o que juntou, alugou um quarto. Na praça central. Não mais menina, decidida, bancou seu sonho. Treinava sozinha, de madrugada, como perder seu sotaque. E com o primeiro trocado que sobrou, comprou um cachecol.
Na biblioteca, leu milhares de orelhas de livros. No Natal, se deu de presente um all star, achado num brechó. No Ano Novo, tingiu os cabelos de ruivo com o dinheiro da passagem. Os pais entenderiam, talvez.
Sentiu-se pronta. Aprendeu trejeitos, cortou as saias. Perambulou pelos cafés, cochilou na mesa do bar. Precisava ser vista. Mentiu sobre sua origem, inventou estórias. Dormiu com o rapaz que fora capa do jornal.
Venceu na vida. Perdeu o velório do pai, pois tinha um teste para um comercial de loja de material de construção. A mãe não perdoou, e não ligou mais.
Ela andava ocupada, aprendendo maracatu. Ia fazer um musical. Apressada, se descuidou ao atravessar a canaleta. A última coisa que viu foi o sapato, um pouco sujo de barro, do motorista que xingava, preocupado com o horário. Tinha um sotaque carregado. Coisa de recém chegado, pensou. Ainda teve tempo de reparar no cachecol empapado de rubro. E os passageiros, ouviram ainda seu ultimo sussurro: foi pro um triz.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Ardor
Sempre elas, as palavras. Maldição de infância.
Solidárias, nunca andam sozinhas. Umas trazem outras, num ciclo. Interminável.
E como saber a medida?
Quando calar?
Como se calar resolvesse. Mas dizer também não resolve. Só aplaca.
Só é o assopro no ralado do joelho.
Que quase sangra, mas por ser pouco profundo, falha.
Se ao menos sangrasse. Mas só arde.
Que o ardor se mantenha, então. E se ameaçar cicatrizar, arrancarei a casca.
Assim, não esqueço. E acho outra palavras.
Solidárias, nunca andam sozinhas. Umas trazem outras, num ciclo. Interminável.
E como saber a medida?
Quando calar?
Como se calar resolvesse. Mas dizer também não resolve. Só aplaca.
Só é o assopro no ralado do joelho.
Que quase sangra, mas por ser pouco profundo, falha.
Se ao menos sangrasse. Mas só arde.
Que o ardor se mantenha, então. E se ameaçar cicatrizar, arrancarei a casca.
Assim, não esqueço. E acho outra palavras.
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