Minha tristeza não marca hora, tem a chave de casa e não faz cerimônia. Chega sempre faminta. Com seu paladar exigente, escolhe o cardápio, e me observa enquanto preparo, cuidadoso, cada prato. A sirvo, cerimonioso, e aguardo um sinal de aprovação, que sempre aparece, queira ela ou não. Satisfeitos, a convido para um licor e um cigarro. Educada, aceita. E relaxa.
Saciada e à vontade, seus olhos entregam que quer mais. Eu, que conheço o jogo, aceito. Ela suspira.
Caprichosa, gosta do meu colo. Provocante, anda nua pela casa. Lasciva, sussurra no meu ouvido. Perfumada, me espera na cama. Inútil resistir. Ainda assim, a faço esperar. A conheço bem, sei dos seus gostos. Aprecio suas sutilezas, e a desejo.
De uns tempos pra cá, insiste em dormir no meu peito, aninhada. Quando juntos, quase não falamos. O toque substitui as palavras, cada gesto carrega em si seu significado. E assim passamos horas, até que o dia, nosso inimigo, se faça presente. Com nossa timidez habitual, sabemos que é hora da despedida. Breve, seca. Insinuante, deixa lânguida os lençóis, me olha e sorri. Cúmplice, se exibe uma última vez, se veste e se vai. E ambos sorriem, com a certeza de que o próximo encontro não tardará. Adormeço com o barulho da chave no tambor.
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