O esgotar das palavras, a mudez que cega.
A alma seca, sem cor. Os lábios ressequidos, como as flores no vaso.
As mãos calejadas, os quilos a mais, a obturação de cai...
Os olhos cansados, mas que não se fecham,
A bebida que corrói o fígado, mas que não mata.
O buscar insano do que dizer, pra quem dizer...
E então, o silêncio.
Os gritos da vizinha, que ralha com a criança ranhenta e descalça.
O conhecido que espanca a concubina, por ir de novo descolorir o cabelo e fazer escova.
A aranha marrom que não tenho coragem de matar, porque se esconde atrás da folhinha com a imagem de Nossa Senhora.
Aquelas palavras que deveria, mas que não digo, não agora.
A esperança distante, o porvir que fica por vir, mas que perde a hora sempre.
A estupidez alheia, sempre tão presente.
O buscar e não achar, o achar e perder.
A porta da frente que sempre acho que deixei aberta.
A paixão que não se consuma, a porta que sempre se fecha.
As palavras escassas, a garganta que atrofia, as garrafas que se esvaziam, os ouvidos que zunem, o joelho que dói.
Eu que me repito, insisto nos mesmos erros, que vocifero sem medida.
Os cupins que se refastelam nas tábuas da casa, eu que me pego beijando a tela...
Crianças que nascem, o sol que se põe, a lua que se esconde.
Eu que me calo, quando deveria gritar. Que escapo, que me evito, que me contento com migalhas.
O tempo que não para, as pessoas que não se calam, que não esquecem.
Eu que não me esqueço,
Que não me livro de mim.
(jan 2011, encontrado só agora)
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