Ele desamarra os sapatos.
Suspira. Um dia longo. Mas ainda não pode dormir, tem suas obrigações. Tira as meias
e observa seus pés. Não são os mesmos. Esfrega os dedos uns nos outros, hábito
de infância. Pela janela entreaberta, a brisa sopra e traz com ela a maresia.
Um hálito quente. Talvez chova, pensa. Uma década não fora suficiente, ainda
tinha saudade de casa. Procura no pequeno armário, uma toalha. Cobre a fresta
da porta. Do esconderijo sob o estrado da cama, retira a pequena lata e o
cachimbo. Hábito da juventude, agora proibido. Sorri com o canto da boca ao lembrar
das zombarias dos amigos. Preferiam cigarros.
Traga profundamente a fumaça adocicada. Sente o leve torpor dominar seu
corpo. Foi um longo dia. Pequenos prazeres, pensa. Esvazia a cabeça. Descobriu
cedo, a capacidade de abstrair. Quase um transe, um sonho. Seu coração dispara,
com o irritante som do antigo telefone. Precisa atender, pois do contrário,
alguém acordaria. A fumaça domina o pequeno quarto. Alô. Preciso que venha
agora, sussurra aos prantos, a voz conhecida. Não posso, é tarde, responde
lacônico. Preciso que venha, insiste quase inaudível, num timbre novo. Meia
hora, concorda contrariado. Venha o mais rápido que puder, temo que chegue
tarde demais, padre...
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