A veia que salta, a pupila que dilata.
O punho que cerra, os dentes que rangem.
Fúria. Inata, própria.
O instinto, cego. O passo firme. O pensar, deixado.
O sangue que ferve, a boca que saliva.
A bílis que explode, o fel que se espalha.
Raiva. Doce, pura.
O urro, grave. O músculo, rijo. A consequência, esquecida.
Civilizados, esquecemos quem somos:
Animais enjaulados. Omissos e passivos; aguardando a dose diária de ração, as migalhas do afago.
Fugimos, mansos, em busca da adaptação.
Agonizamos a cada dia, sorrindo.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Ela e eu
Minha tristeza não marca hora, tem a chave de casa e não faz cerimônia. Chega sempre faminta. Com seu paladar exigente, escolhe o cardápio, e me observa enquanto preparo, cuidadoso, cada prato. A sirvo, cerimonioso, e aguardo um sinal de aprovação, que sempre aparece, queira ela ou não. Satisfeitos, a convido para um licor e um cigarro. Educada, aceita. E relaxa.
Saciada e à vontade, seus olhos entregam que quer mais. Eu, que conheço o jogo, aceito. Ela suspira.
Caprichosa, gosta do meu colo. Provocante, anda nua pela casa. Lasciva, sussurra no meu ouvido. Perfumada, me espera na cama. Inútil resistir. Ainda assim, a faço esperar. A conheço bem, sei dos seus gostos. Aprecio suas sutilezas, e a desejo.
De uns tempos pra cá, insiste em dormir no meu peito, aninhada. Quando juntos, quase não falamos. O toque substitui as palavras, cada gesto carrega em si seu significado. E assim passamos horas, até que o dia, nosso inimigo, se faça presente. Com nossa timidez habitual, sabemos que é hora da despedida. Breve, seca. Insinuante, deixa lânguida os lençóis, me olha e sorri. Cúmplice, se exibe uma última vez, se veste e se vai. E ambos sorriem, com a certeza de que o próximo encontro não tardará. Adormeço com o barulho da chave no tambor.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Desajuste
Desisto fácil por conta de um desajuste. Nem insisto.
Te desobrigo. Prescindo das companhias, e suporto a minha. Por pura falta de opção.
Meu apego é efêmero; minha lembrança, curta.
Me lanço, e me recolho. Típico das profundezas.
Anoto, e depois risco.
Imagino, e não concretizo. Esforço, mínimo.
Cultivo ciclos curtos, horas as vezes. Meses, no máximo.
Ainda canto, mas apenas as parcas canções que me comovem.
Sigo as palavras no papel, as que me incitam.
E me espalho, aqui e ali, as vezes.
Só para me esvaziar.
Te desobrigo. Prescindo das companhias, e suporto a minha. Por pura falta de opção.
Meu apego é efêmero; minha lembrança, curta.
Me lanço, e me recolho. Típico das profundezas.
Anoto, e depois risco.
Imagino, e não concretizo. Esforço, mínimo.
Cultivo ciclos curtos, horas as vezes. Meses, no máximo.
Ainda canto, mas apenas as parcas canções que me comovem.
Sigo as palavras no papel, as que me incitam.
E me espalho, aqui e ali, as vezes.
Só para me esvaziar.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Até
Não me irrito com o rito, abuso dele.
Repito o repetir até quase me irritar.
Aí paro.
Respiro e reparo. Rio, remoo, regurgito.
Não me importuno comigo, me esqueço.
Continuo com o incômodo até quase me comover.
Ai canso.
Comungo e confesso.
Creio, cristalizo, compartilho.
Não me importo com o erro, flerto com ele.
Espalho o equívoco, até quase acreditar.
Ai esqueço.
Estúpido e estranho.
Embromo, elucido, emerjo.
Não me canso da dúvida, a venero.
Desejo a dádiva até quase desistir.
Ai declino.
Dúbio e decidido.
Despisto, devoro, domino.
Repito o repetir até quase me irritar.
Aí paro.
Respiro e reparo. Rio, remoo, regurgito.
Não me importuno comigo, me esqueço.
Continuo com o incômodo até quase me comover.
Ai canso.
Comungo e confesso.
Creio, cristalizo, compartilho.
Não me importo com o erro, flerto com ele.
Espalho o equívoco, até quase acreditar.
Ai esqueço.
Estúpido e estranho.
Embromo, elucido, emerjo.
Não me canso da dúvida, a venero.
Desejo a dádiva até quase desistir.
Ai declino.
Dúbio e decidido.
Despisto, devoro, domino.
domingo, 8 de janeiro de 2012
Fever
Detalhes. Já se disse que o diabo mora nos detalhes. Mas não só ele. É dos detalhes que nos abastecemos. Do timbre único da cantora que gostamos, da pequena pinta no tornozelo esquerdo da mulher amada, da cicatriz no queixo do amigo de infância, que só será reconhecido cinquenta anos depois, por esse detalhe.
E a cada dia os perdemos, os detalhes. Em nossa busca frenética de sermos alguém, deixamos de lado o que nos caracteriza. Não os reconhecemos em nós, e muito menos nos outros. Cada palavra, cada olhar, o mínimo sinal. Do outro, do nós mesmos. O pelo que arrepia, a pupila que dilata, o arfar, o peito que dilata a caixa toráxica. Nos perdemos no grande, e negligenciamos o pequeno. O ínfimo. Como se não fossemos feitos de ínfimos átomos de matéria.
Que sejamos apenas um detalhe, capaz de alterar tudo ao nosso redor.
Que sejamos apenas uma febre...
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Gaivotas I
Ele desamarra os sapatos.
Suspira. Um dia longo. Mas ainda não pode dormir, tem suas obrigações. Tira as meias
e observa seus pés. Não são os mesmos. Esfrega os dedos uns nos outros, hábito
de infância. Pela janela entreaberta, a brisa sopra e traz com ela a maresia.
Um hálito quente. Talvez chova, pensa. Uma década não fora suficiente, ainda
tinha saudade de casa. Procura no pequeno armário, uma toalha. Cobre a fresta
da porta. Do esconderijo sob o estrado da cama, retira a pequena lata e o
cachimbo. Hábito da juventude, agora proibido. Sorri com o canto da boca ao lembrar
das zombarias dos amigos. Preferiam cigarros.
Traga profundamente a fumaça adocicada. Sente o leve torpor dominar seu
corpo. Foi um longo dia. Pequenos prazeres, pensa. Esvazia a cabeça. Descobriu
cedo, a capacidade de abstrair. Quase um transe, um sonho. Seu coração dispara,
com o irritante som do antigo telefone. Precisa atender, pois do contrário,
alguém acordaria. A fumaça domina o pequeno quarto. Alô. Preciso que venha
agora, sussurra aos prantos, a voz conhecida. Não posso, é tarde, responde
lacônico. Preciso que venha, insiste quase inaudível, num timbre novo. Meia
hora, concorda contrariado. Venha o mais rápido que puder, temo que chegue
tarde demais, padre...
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Obviedades
Talvez um dia, eu pare.
De me expor, de me despejar num qualquer papel, num palco mal iluminado.
Talvez um dia eu canse, e queira ficar num canto, quieto.
Talvez um dia, eu não me importe, não deseje e não queira.
E talvez até ouça os sucessos populares.
Talvez até engavete tudo.
Talvez um dia eu abandone as reticências, aprenda a dizer adeus.
Me conforme com o que sou, e aposente a subversão.
Talvez um dia eu escreva sobre outras coisas,
deixe as metáforas fugirem pela janela.
Esqueça os aforismos, os neologismos e paroxismos.
Talvez um dia eu acorde simples, com apenas três acordes.
E use os livros para segurar a porta, que teimosa se fecha.
Talvez, um dia eu pare...
E nem perceba...
De me expor, de me despejar num qualquer papel, num palco mal iluminado.
Talvez um dia eu canse, e queira ficar num canto, quieto.
Talvez um dia, eu não me importe, não deseje e não queira.
E talvez até ouça os sucessos populares.
Talvez até engavete tudo.
Talvez um dia eu abandone as reticências, aprenda a dizer adeus.
Me conforme com o que sou, e aposente a subversão.
Talvez um dia eu escreva sobre outras coisas,
deixe as metáforas fugirem pela janela.
Esqueça os aforismos, os neologismos e paroxismos.
Talvez um dia eu acorde simples, com apenas três acordes.
E use os livros para segurar a porta, que teimosa se fecha.
Talvez, um dia eu pare...
E nem perceba...
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Quase antigo
O esgotar das palavras, a mudez que cega.
A alma seca, sem cor. Os lábios ressequidos, como as flores no vaso.
As mãos calejadas, os quilos a mais, a obturação de cai...
Os olhos cansados, mas que não se fecham,
A bebida que corrói o fígado, mas que não mata.
O buscar insano do que dizer, pra quem dizer...
E então, o silêncio.
Os gritos da vizinha, que ralha com a criança ranhenta e descalça.
O conhecido que espanca a concubina, por ir de novo descolorir o cabelo e fazer escova.
A aranha marrom que não tenho coragem de matar, porque se esconde atrás da folhinha com a imagem de Nossa Senhora.
Aquelas palavras que deveria, mas que não digo, não agora.
A esperança distante, o porvir que fica por vir, mas que perde a hora sempre.
A estupidez alheia, sempre tão presente.
O buscar e não achar, o achar e perder.
A porta da frente que sempre acho que deixei aberta.
A paixão que não se consuma, a porta que sempre se fecha.
As palavras escassas, a garganta que atrofia, as garrafas que se esvaziam, os ouvidos que zunem, o joelho que dói.
Eu que me repito, insisto nos mesmos erros, que vocifero sem medida.
Os cupins que se refastelam nas tábuas da casa, eu que me pego beijando a tela...
Crianças que nascem, o sol que se põe, a lua que se esconde.
Eu que me calo, quando deveria gritar. Que escapo, que me evito, que me contento com migalhas.
O tempo que não para, as pessoas que não se calam, que não esquecem.
Eu que não me esqueço,
Que não me livro de mim.
(jan 2011, encontrado só agora)
A alma seca, sem cor. Os lábios ressequidos, como as flores no vaso.
As mãos calejadas, os quilos a mais, a obturação de cai...
Os olhos cansados, mas que não se fecham,
A bebida que corrói o fígado, mas que não mata.
O buscar insano do que dizer, pra quem dizer...
E então, o silêncio.
Os gritos da vizinha, que ralha com a criança ranhenta e descalça.
O conhecido que espanca a concubina, por ir de novo descolorir o cabelo e fazer escova.
A aranha marrom que não tenho coragem de matar, porque se esconde atrás da folhinha com a imagem de Nossa Senhora.
Aquelas palavras que deveria, mas que não digo, não agora.
A esperança distante, o porvir que fica por vir, mas que perde a hora sempre.
A estupidez alheia, sempre tão presente.
O buscar e não achar, o achar e perder.
A porta da frente que sempre acho que deixei aberta.
A paixão que não se consuma, a porta que sempre se fecha.
As palavras escassas, a garganta que atrofia, as garrafas que se esvaziam, os ouvidos que zunem, o joelho que dói.
Eu que me repito, insisto nos mesmos erros, que vocifero sem medida.
Os cupins que se refastelam nas tábuas da casa, eu que me pego beijando a tela...
Crianças que nascem, o sol que se põe, a lua que se esconde.
Eu que me calo, quando deveria gritar. Que escapo, que me evito, que me contento com migalhas.
O tempo que não para, as pessoas que não se calam, que não esquecem.
Eu que não me esqueço,
Que não me livro de mim.
(jan 2011, encontrado só agora)
domingo, 1 de janeiro de 2012
O eterno partir
Entre ficar e partir, sempre preferi o partir. E mais uma vez, chegou a hora de fazer a mochila, e ganhar a estrada.
Não devo voltar em breve, logo, cada ida é também uma despedida da cidade que ainda chamo de minha. Nossa relação tem mudado ano a ano. Hoje ela me parece aquela tia distante, que vejo só em ocasiões especiais, geralmente desagradáveis. Ainda volto, porque minhas raízes estarão sempre fincadas nesse chão gelado e úmido. Mas, diferente de outras vindas, não coloquei as expectativas na mochila. São tão poucas e tão pequenas, que caberiam no bolso da calça. Mas nem isso fiz. Deixei-as...
Desejei sim, encontrar algumas pessoas, mas quase não insisti. E dos poucos que encontrei, me abasteço pelos próximos meses.
Volto então, pro lugar que é meu endereço atual, sem saber até quando será. Retomo o trabalho, querendo sempre mais, deixando a mala sempre pronta.
E quem sabe, um dia eu volte...
Mais do mesmo
Meu Ano Novo tem gosto de passado, sem fogos ou espumante.
Tem Radiohead e Chet Baker...
Meia dúzia de mensagens, pouca gente à mesa,
E quase ninguém no coração.
Meu Ano Novo não é tão novo, não mudo com o calendário.
Não pulo sete ondas, e me visto de negro.
Meu Ano Novo tem efusivos e falsos abraços, feridas recém fechadas.
Tem maionese que eu mesmo faço.
Um lembrar aqui, outro ali,
E a certeza da espera...
Tem Radiohead e Chet Baker...
Meia dúzia de mensagens, pouca gente à mesa,
E quase ninguém no coração.
Meu Ano Novo não é tão novo, não mudo com o calendário.
Não pulo sete ondas, e me visto de negro.
Meu Ano Novo tem efusivos e falsos abraços, feridas recém fechadas.
Tem maionese que eu mesmo faço.
Um lembrar aqui, outro ali,
E a certeza da espera...
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