sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

11

E sim...
Me espalho, me esparramo, me transbordo
Exagero
Me repenso, me revejo, me reconheço
Sou o mesmo, diferente
Relembrando coisas até então dadas como mortas...
Empilho cadáveres diários, vestidos com meu sentir
Exagero, eu
Não respeito a capacidade do copo...
Desprezo as razões, cuspo nos porquês
Sou o mesmo, diferente
Tripudio prazos, desdenho o alheio
Me divido, o mesmo, diferente
E sim, não canso...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Depois de tudo

Calei-me.
E segui vivendo, calado.
Mostrei-me e calei.
Deixei o tempo, soberano, passar.
E me calei. Só disse o necessário.
E muitas vezes, nem isso.
Perdi, ganhei. Descobri, larguei.
Tudo continua igual.
Exceto por uma fagulha. Que sopro a cada respirar.
Redenção? Talvez.
Novo fôlego. Certeza.
E talvez me cale. 
Ou não.

Dona Helena e eu

Minha aversão por clichês é notória. E se somam aos clichês, o oportunismo, a ignorância e o mercantilismo, então a aversão se torna repulsa. E repulsa foi que senti durante todo o ano, quando se evocou, indistinta e profanamente o nome de Dona Helena.
Por admiração imutável, e por respeito quase sacro, escrevo, no ultimo mês do ano, inacabadas e insuficientes linhas sobre aquela que sem querer, tornou-se minha madrinha.
Aos oito, já letrado pela severa mãe germânica, como tarefa, escrevi redação, que viria a ser premiada. E o troféu, um livro, autografado, de corpo e alma presente, pela autora: Helena Kolody. O guardo até hoje, como guardo as palavras simples, diretas, objetivas, que me fizeram sonhar os mesmos sonhos impressos no papel pardo. Igualmente, guardo os olhos claros de anjo me entregando o regalo com um sorriso e uma frase: a poesia te fará uma criança, mesmo quando teus cabelos forem da cor das nuvens.
A reencontrei muito tempo depois, já quase senhor de mim, com a barba por fazer. Vendi livros por um tempo, num tempo em que se lia, e que o lugar onde se encontravam as letras era quase um templo. Por uma porta da Voluntários da Pátria, entra Helena, a Dona Helena. A cumprimentei, e repeti a frase que ela me dissera anos antes: os olhos da cor do céu brilharam, e nos reconhecemos. Ao longo de pouco menos de dois anos, partilhamos cafés, estórias, frases, autores, olhares. E entendi que a poesia é de carne e osso.
Outros anos se passam, e eu já das artes por influencia direta daqueles olhos da cor do céu, opto pela insânia de abrir as portas de um espaço físico para que as letras, as cores e formas se concretizem. Estamos em 2004. E é quando, pouco depois das festas, aqueles olhos da cor do céu juntam-se ao céu azul, tornando-o ainda mais intenso. Esse brilho foi tão forte, que a menor das homenagens e o maior dos privilégios, fez surgir a Casa de Artes Helena Kolody, amadrinhado e abençoado por aqueles olhos que só quem teve a sorte de ser agraciado, pode entender.
Dona Helena Kolody. Um nome que respeito tanto ou mais do que o de minha própria mãe. E que me esforço diariamente, para ser digno deste parentesco feito não de sangue, mas de poesia .

domingo, 30 de setembro de 2012

Vindas

Não foi a primeira vez que a calma me estendeu a mão.
Orgulhoso, sempre desdenhei.
E por pura pirraça, metia as mãos no bolso.
Ela porém, nunca desistiu.
- Tarefa! dizia, humilde.
Noite dessas, ouço bater à janela.
Já conheço o som suave da sua pequena mão ao encontrar o vidro.
Sorrindo, me ofereceu mais uma vez.
E resolvi aceitar seu convite...
Não sei como será, sua companhia é nova,
Também não sei até quando nossas mãos estarão unidas,
Mas até lá, aproveito sua presença, e com calma, sigo
E escrevo...

domingo, 15 de julho de 2012

Tolo

Olhos que brilham. Aquecem.
Fazem esquecer.
Iluminam. Enternecem.
Fazer querer.
Olhos que cantam. Acompanham.
Trazem cor.
Encantam. Resplandecem
Viram prece.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Devoto

Prezo pouco, mas o pouco que prezo, prezo muito. E prezo coisas simples...
Dentre elas, os ciclos: o de calar, o de vociferar, o de aguardar, o de urgir.
E os vivo todos, num mesmo dia...
E prezo pela inconstância.
Busco a fina sintonia entre o que deve e o que me move.
Agarro minhas crenças e convicções; abro pequenas e breves concessões, só porque o caminho entre elas é divertido.
E retomo o ciclo. Sou o que me move, e me movo pelo que sou. Me regurgito.
Como sempre. Sempre como.
Desfaço o sentido de tudo que me esforcei muito para fazer sentido.
Meu sentir não pensar. E não penso no que sinto.
Me empurro para o abismo, e refuto a mão que quer me segurar. 
Me abasteço da vertigem da queda. Me esfalfo no chão, bato o pó das velhas calças.
Limpo o sangue do nariz na manga da camisa. 
E subo. E ciclo. E prezo.
De novo.

terça-feira, 27 de março de 2012

Nem mesmo

"Se você pudesse ver o amante em mim e pudéssemos juntar nossas mãos, você veria o quão bom poderia ser, e cantaríamos essas estúpidas canções de amor para sempre..."
Mais uma vez, um trecho de canção, já quase antiga, e muito desconhecida. 
E com ela, um pensar tolo, como é tola toda paixão. Essa vontade de dividir-se, de comungar, de aceitar e admirar.
Já não sei se sabemos amar. Nem ao mesmo se ainda sabemos o que significa.
Escondemos nas palavras batidas essa nossa incapacidade. Declinamos no primeiro acelerar do peito, no primeiro sorriso que escapa. 
E não sabemos mais, porque amor, é descontrole. É aquela fúria indomável. Fremente e inconstante, que nos faz agir por impulso, perder a fala e secar a boca. É chama. Queima e dói. De dor e de prazer.
E é isso que perdemos, essa capacidade. 
Almejamos o controle, total. Sobre todos e sobretudo sobre nós mesmos. Sem mais espaço para o perder de rumo, sem o desconforto de estar perdido. 
Assim, o amar se foi. As mãos dadas se foram, e o cantar das estúpidas canções de amor se perdeu...
E nem mesmo os poetas amam mais.