domingo, 5 de fevereiro de 2012

Indo

Juntou uns trocados e lá se foi, com o ônibus que parte da acanhada rodoviária pouco antes da meia noite. Não dormiu, pois a senhora obesa roncava na poltrona ao lado. A cabeça fervente, o coração cheio de sonhos.
Suspirou quando viu o primeiro prédio, e deixou a estação com os sapatos ainda enlameados. Do orelhão, perguntou à prima o endereço e como chegar.
Instalada, periférica, colocava as compras na sacola do mercadinho o dia inteiro. Dinheiro pouco, trabalho muito. Cantava no fim do dia. E antes de dormir, rezava. Queria ser atriz.
Com o que juntou, alugou um quarto. Na praça central. Não mais menina, decidida, bancou seu sonho. Treinava sozinha, de madrugada, como perder seu sotaque. E com o primeiro trocado que sobrou, comprou um cachecol. 
Na biblioteca, leu milhares de orelhas de livros. No Natal, se deu de presente um all star, achado num brechó. No Ano Novo, tingiu os cabelos de ruivo com o dinheiro da passagem. Os pais entenderiam, talvez.
Sentiu-se pronta. Aprendeu trejeitos, cortou as saias. Perambulou pelos cafés, cochilou na mesa do bar. Precisava ser vista. Mentiu sobre sua origem, inventou estórias. Dormiu com o rapaz que fora capa do jornal. 
Venceu na vida. Perdeu o velório do pai, pois tinha um teste para um comercial de loja de material de construção. A mãe não perdoou, e não ligou mais. 
Ela andava ocupada, aprendendo maracatu. Ia fazer um musical. Apressada, se descuidou ao atravessar a canaleta. A última coisa que viu foi o sapato, um pouco sujo de barro, do motorista que xingava, preocupado com o horário. Tinha um sotaque carregado. Coisa de recém chegado, pensou. Ainda teve tempo de reparar no cachecol empapado de rubro. E os passageiros, ouviram ainda seu ultimo sussurro: foi pro um triz. 

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