terça-feira, 27 de março de 2012

Nem mesmo

"Se você pudesse ver o amante em mim e pudéssemos juntar nossas mãos, você veria o quão bom poderia ser, e cantaríamos essas estúpidas canções de amor para sempre..."
Mais uma vez, um trecho de canção, já quase antiga, e muito desconhecida. 
E com ela, um pensar tolo, como é tola toda paixão. Essa vontade de dividir-se, de comungar, de aceitar e admirar.
Já não sei se sabemos amar. Nem ao mesmo se ainda sabemos o que significa.
Escondemos nas palavras batidas essa nossa incapacidade. Declinamos no primeiro acelerar do peito, no primeiro sorriso que escapa. 
E não sabemos mais, porque amor, é descontrole. É aquela fúria indomável. Fremente e inconstante, que nos faz agir por impulso, perder a fala e secar a boca. É chama. Queima e dói. De dor e de prazer.
E é isso que perdemos, essa capacidade. 
Almejamos o controle, total. Sobre todos e sobretudo sobre nós mesmos. Sem mais espaço para o perder de rumo, sem o desconforto de estar perdido. 
Assim, o amar se foi. As mãos dadas se foram, e o cantar das estúpidas canções de amor se perdeu...
E nem mesmo os poetas amam mais.

domingo, 11 de março de 2012

Every day is like sunday

"Minha vida é uma sucessão de pessoas dizendo adeus".
Cresci ouvindo The Smiths, e na gelada Curitiba me sentia próximo do frio de Londres. E como qualquer admirador honesto, fiz minhas muitas das palavras desse senhor. Sim, dediquei suas canções como se fossem minhas, usei suas frases. Seu topete não é mais o mesmo, e eu não sou mais aquele garoto. E hoje, cantei sozinho com aquele que chamo, carinhosamente, de minha tia velha. Revi o rosto daquela para quem dediquei as suas canções, lembrei de cada circunstância. Fui jovem por uma hora e meia, revivi cada paixão. E as deixei. Um ritual estranho, de cura e admiração, e um pouco só de raiva, por não ser capaz de me expressar assim.
Obrigado Sir Morrissey! Talvez depois de hoje, eu te ouça diferente. E talvez não dedique mais as tuas músicas. Mas não deixe de transmitir em palavras e partituras o que sente. E volte sempre.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Ocupação

Deixar. Tenho conjugado esse verbo à exaustão, há quase quarenta anos. 
Deixo e me deixo.
E só escrevo quando a alma grita. Por muito, ou por nada.
Por uma simples sensação, um aroma, um arfar.
Meu silêncio desembocou nisso, num talvez. Numa impressão.
E de novo, sopro a última brasa, abro o peito e pago o preço.
Alterno passos largos com outros, quase imperceptíveis.
Deixei, de novo. E ficou o espaço, vazio. Não por muito tempo.
Algo ou alguém sempre o ocupa.
Então, que eu me ocupe, de novo, sem culpa.
E deixo a sensação me ocupar, até que se conjugue, de novo, o verbo que tão bem conheço.