Minha aversão por clichês é notória. E se
somam aos clichês, o oportunismo, a ignorância e o mercantilismo, então a
aversão se torna repulsa. E repulsa foi que senti durante todo o ano,
quando se evocou, indistinta e profanamente o nome de Dona Helena.
Por
admiração imutável, e por respeito quase sacro, escrevo, no ultimo mês
do ano, inacabadas e insuficientes linhas sobre aquela que sem querer,
tornou-se minha madrinha.
Aos oito, já letrado pela severa mãe
germânica, como tarefa, escrevi redação, que viria a ser premiada. E o
troféu, um livro, autografado, de corpo e alma presente, pela autora:
Helena Kolody. O guardo até hoje, como guardo as palavras simples,
diretas, objetivas, que me fizeram sonhar os mesmos sonhos impressos no
papel pardo. Igualmente, guardo os olhos claros de anjo me entregando o
regalo com um sorriso e uma frase: a poesia te fará uma criança, mesmo
quando teus cabelos forem da cor das nuvens.
A reencontrei muito
tempo depois, já quase senhor de mim, com a barba por fazer. Vendi
livros por um tempo, num tempo em que se lia, e que o lugar onde se
encontravam as letras era quase um templo. Por uma porta da Voluntários
da Pátria, entra Helena, a Dona Helena. A cumprimentei, e repeti a frase
que ela me dissera anos antes: os olhos da cor do céu brilharam, e nos
reconhecemos. Ao longo de pouco menos de dois anos, partilhamos cafés,
estórias, frases, autores, olhares. E entendi que a poesia é de carne e
osso.
Outros anos se passam, e eu já das artes por influencia
direta daqueles olhos da cor do céu, opto pela insânia de abrir as
portas de um espaço físico para que as letras, as cores e formas se
concretizem. Estamos em 2004. E é quando, pouco depois das festas,
aqueles olhos da cor do céu juntam-se ao céu azul, tornando-o ainda mais
intenso. Esse brilho foi tão forte, que a menor das homenagens e o
maior dos privilégios, fez surgir a Casa de Artes Helena Kolody,
amadrinhado e abençoado por aqueles olhos que só quem teve a sorte de
ser agraciado, pode entender.
Dona Helena Kolody. Um nome que
respeito tanto ou mais do que o de minha própria mãe. E que me esforço
diariamente, para ser digno deste parentesco feito não de sangue, mas de
poesia .
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